A luz e a escuridão

A luz e a escuridão

Para Sabina, viver significa ver. A visão é limitada por uma dupla fronteira: a luz intensa que cega e a escuridão total. Os extremos delimitam a fronteira para além da qual a vida termina, e a paixão pelo extremismo, tanto em arte como em política, é um desejo de morte disfarçado.

Para Franz, a palavra “luz” não evoca a imagem de uma paisagem suavemente iluminada pelo sol, mas sim a fonte da própria luz: o sol, uma lâmpada, um projetor. Lembra-se das metáforas usuais: o sol da verdade; o brilho ofuscante da razão, etc.

Da mesma maneira que é atraído pela luz, é atraído pela escuridão. Atualmente, apagar a luz para fazer amor é tido como ridículo; ele sabe disso, e deixa uma pequena luz acesa em cima da cama. No entanto, no momento de penetrar Sabina, fecha os olhos. A volúpia que o invade exige escuridão. Essa escuridão é pura, absoluta, sem imagens nem visões, essa escuridão não tem fim nem fronteiras, essa escuridão é o infinito que cada um de nós traz em si. (Sim, se alguém procura o infinito, basta fechar os olhos).

No momento em que sente a volúpia espalhar-se por seu corpo, Franz se dissolve no infinito de sua escuridão, tornando-se infinito. Quanto mais o homem cresce na sua escuridão interior, mais encolhe em sua aparência física. Um homem com os olhos fechados é um destroço de si mesmo.

Sabina não quer vê-lo e por sua vez fecha os olhos. Para ela, essa escuridão não significa o infinito, mas apenas um divórcio daquilo que vê, a negação do que é visto, a recusa de enxergar.

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

*Nem preciso dizer o quanto me identifiquei..rsrs

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